Eu sou vegetariano. E sei que essa frase já pode ter feito você tirar várias conclusões a meu respeito, para além do fato de eu não comer carne. Porque ser vegetariano ofende as pessoas. Mesmo que eu esteja quietinho no meu canto, comendo uma quiche de alho poró.
É como se eu estivesse julgando os onívoros - que comem carnes e vegetais - apenas porque escolho restringir as minhas refeições em solidariedade aos animais. Mas eu não estou julgando ninguém (ok, exceto quem acredita que bacon vai bem com tudo).
Há 10 meses, tenho me virado bem com leite, ovos e vegetais. E doces. Comer continua sendo um prazer. Às vezes, a companhia é que estraga a refeição. Porque o maior problema não é encontrar fontes alternativas de ferro, zinco e vitaminas do complexo B. O problema são os outros.
Sempre há quem me diga que as granjas são campos de concentração aviários (já viu A Fuga das Galinhas?) ou que as vacas 'pastam' um bocado para que eu beba o meu milk-shake de Ovomaltine. Bem, compro ovos caipiras e, no momento, tenho me resignado a consumir leite e derivados, a despeito do que sofrem os bovinos.
Mas será que eu preciso me explicar só porque ouso recusar uma picanha? Poxa, também sou humano e tenho direito à minha cota de ingenuidade e hipocrisia. Dá vontade de dizer simplesmente: 'Cale a boca e me passe a salada.' Só que eu não digo.
E sempre há quem me pergunte se não me preocupo com os sentimentos dos vegetais. Ser vegetariano não significa comer as mesmas coisas, porque há possibilidades infinitas de combinações, mas ouvir sempre as mesmas piadas. Às vezes, penso em dizer que me tornei vegetariano só para irritar as pessoas. Pena que a frase não seja minha.
A questão é que sou adepto da comunicação não-violenta e prefiro acreditar que, com a propagação da informação, a inclusão das minorias, a evolução da espécie, as pessoas vão ser mais empáticas e respeitosas (perceba que já estou usufruindo da minha cota de ingenuidade.)
Outro dia, os pepinos espanhóis foram acusados de contaminação bacteriana. E, em seguida, dois clássicos: o tomate e a alface. Mas, antes que eu tivesse de me preocupar com a nacionalidade do jantar, o trio foi inocentado. O réu agora é o broto de feijão alemão. Daqui a pouco só vão vender verdura com passaporte.
Por isso, um apelo: não condene um vegetariano. Nosso povo já sofreu o bastante. Reflita. Depois de ler este desabafo, você continua me julgando? Então, cale a boca e me passe a salada.